Matéria: Um Novo Suspiro Para o Belas Artes

Um Novo Suspiro Para o Belas Artes

por Barbara Sturm

O grande cinema é o comercial: os maiores valores de produção, cópias e bilheterias, grande divulgação, e, claro, o enorme sucesso da equipe e do filme em si. Além dele há o cinema de arte: grandes atuações resultantes de grandes direções, grandes histórias e narrativas, e, principalmente, grandes mensagens e/ou experiências transmitidas ao público.

Junto com o cinema comercial vêm os cinemas em shoppings, as compras, a comida fast-food. E junto com o cinema de arte vêm os cinemas de rua, as programações diferenciadas, os cineclubes e o filme como programa principal.

Infelizmente, cada vez mais o mundo pensa no grande faturamento, nos rios de dinheiro, ou seja, no grande lucro. Não preciso dizer qual dos “tipos de cinema” é mais valorizado e qual é deixado de lado.

Meu pai sempre foi amante incondicional de cinema. Vê centenas de filmes durante o ano, se envolve em produções e roteiros, e administra empresas relacionadas a cinema. E isso foi passado para mim. O resultado é que minha vida é toda tomada por cinema, desde a minha casa, conversas, amigos, até o meu trabalho. Sou assistente de programação de um cinema.

Desde março do ano passado, minha segunda casa, que é um dos grandes cinemas da cidade de São Paulo “entrou na UTI” (como disse poeticamente uma grande amiga): o Cine Belas Artes. Aberto há quase 70 anos, já foi Trianon, Cine Ritz, cinema da Gaumont, e até sede da Cinemateca.

Depois de começar a ser administrado por André Sturm, há quase oito anos, voltou a ter sua programação explicitamente voltada para filmes de arte. E, paralelamente, ganhou um Cineclube e o Noitão, evento em que são exibidos três filmes da meia noite às seis da manhã, com direito a café da manhã para os “sobreviventes”.

Pouco depois de assumir o cinema, Sturm conseguiu o patrocínio do banco HSBC, um grande aliado por anos. Porém, em março de 2010, o banco decidiu não renovar o contrato. Foi quando o Belas Artes deu entrada na emergência. Matérias, movimentações, blogs, todo mundo que se sentia triste com a situação começou a agir. Uma das coisas mais originais foi a criação da campanha, em julho e agosto, entre restaurantes intitulada TUDO PODE DAR CERTO. O esquema era simples: jantando em um dos restaurantes participantes, e contribuindo com mais cinco reais o cliente ganhava um ingresso para qualquer filme no cinema. Sucesso. Todo mundo participou, e várias pessoas que até então não iam ao lugar viraram freqüentadoras.

Porém, o patrocínio não apareceu. Sturm conversou com o dono do imóvel e com o seu advogado, em setembro, pedindo um prazo até o fim do ano para dar uma posição em relação ao futuro do cinema, já que o contrato só terminaria em 28 de fevereiro de 2011. Eles deram o “ok”.

Em novembro, enfim, o querido e esperado patrocinador apareceu. Em dezembro Sturm e patrocinador foram conversar com proprietário e seu advogado. O que eles ouviram um mês após o “ok”? Simples assim: ‘’Não tem conversa, dia 30 estará chegando uma ordem de despejo no cinema. Foi bom, beijo, tchau.’’

foto por Anderson Gligor

Passadas as festas de fim de ano, Sturm anunciou a situação publicamente e aí veio a maior surpresa de todas: o assunto mais comentado no Twitter brasileiro, quatro passeatas pela Av. Paulista (uma delas no meio de chuva), dois abaixo-assinados com mais de 10 mil assinaturas, matérias e entrevistas em todos os lugares, inclusive no Jornal Nacional!

O amor da cidade pelo Belas Artes bateu mais forte e cada um se manifestou como pôde.

Sturm, com o coração apertado, marcou a data de fechamento do cinema para 27 de janeiro e, como cinéfilo de carteirinha, resolveu devolver para a cidade o carinho recebido. Programou duas mostras: uma com os grandes filmes exibidos no Belas Artes ao longo de sua existência, e outra com alguns clássicos e cults que marcaram a história do cinema. Sucesso! A cidade agradeceu e compareceu.

No fim de janeiro foi aprovada a abertura do processo de tombamento do imóvel. Nossa única e última chance. Com isso, foi-se resolvido que o cinema ficaria aberto até 24 de fevereiro quando expira o contrato, ampliando por mais uns dias a esperança de um final feliz.

Hoje o advogado entrou em contato sugerindo uma equação para que o cinema continue funcionando. O primeiro passo é chegar á um valor satisfatório para ambas às partes. Propôs continuarmos abertos mais uma semana para termos uma situação concreta e definitiva.

No dia que antecede a até então data de fechamento do cinema, quarta-feira 23 de Fevereiro, haverá uma passeata saindo do MASP até o cinema, e lá, ás 19hs, haverá o Ato Contra o Fechamento do Cine Belas Artes. O Ato defende o tombamento do imóvel, que embora funcione em prédio privado, tornou-se patrimônio cultural, histórico e afetivo da cidade de São Paulo e do Brasil. Estarão presentes personalidades da política, cultura e da sociedade civil. Contamos com a presença de todos.

Se isso tudo vai tocar o coraçãozinho (e o bolso) do proprietário e de seu advogado, não se sabe. Afinal, ele parece ter um coração um pouco gelado para chegar a esse ponto. Mas o carinho que recebemos já vale muito. E, com certeza, isso não vai deixar o Belas Artes morrer nunca, seja como e onde for.

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